Resenha do livro O Alienista por Machado de Assis



 O Alienista, para muitos considerado um conto e para outros uma novela, é uma riquíssima obra machadiana que apresenta traços de romantismo e de realismo.

A narrativa é recheada, propositalmente, de críticas, ironias e sarcasmos que estão genialmente arrojados nas linhas e entrelinhas da narração. Machado de Assis, assim como outros escritores do seu tempo e como em outras de suas obras, critica certos valores e costumes conservadores presentes na sociedade em que vivia.

Em O Alienista desvela e põe em debate práticas e sentimentos como o egoísmo, o benefício próprio, a falta de sensibilidade e justiça, o orgulho exacerbado e outros mais presentes nos atos das personagens.

A história gira em torno das atitudes e ideias “insanas e radicais” do Dr. Simão Bacamarte, um médico brasileiro, de Itaguaí-RJ, recém-formado na Europa, respeitado na academia e pelas autoridades políticas pelo seu conhecimento e status.

Dedica-se a psiquiatria e passa a estudar freneticamente sobre a loucura humana tentando descobrir as suas causas e sua cura universal. É um homem inflexível e insensível que coloca os princípios da ciência acima da emoção e dos sentimentos humanos.

Na busca de atestar e justificar suas teorias do comportamento humano chega a enclausurar a própria esposa num manicômio por ele criado, acusando-a de não estar em suas perfeitas faculdades mentais. Considerava-se superior aos demais habitantes da sua região por ser um médico e seus conhecimentos estarem respaldados pela ciência. 

No entanto, sabe-se que o conhecimento científico assim como os demais tipos de saber também é passível de contestação, pois a sociedade e a natureza estão em constante processo de transformação, sendo assim as teorias elaboradas não são absolutas, mas refutáveis.

Sua teoria inicial era a de que todos que apresentassem algum tipo de comportamento exagerado e repetitivo que fugisse dos padrões de normalidade e de equilíbrio da racionalidade eram considerados loucos e deveriam ser internados num hospício, ou seja, na Casa Verde como era chamada a instituição de “loucos” por ele desenvolvida. Esta teoria “desmoronou-se” como uma encosta que desaba após uma forte enxurrada, já que praticamente todas as pessoas apresentaram, apresentam ou apresentarão ao longo da vida algumas características que ele considerava como loucura.

Surge para o alienista outra ideia agora contrária a anterior. Era considerado desequilibrado mentalmente aquele que fosse totalmente normal ou que não apresentasse desvio de conduta, ou melhor, aquelas pessoas corretas, justas, baseadas na retidão, no senso de justiça e no bom caráter. 

Mais uma vez sua teoria estava equivocada, pois ninguém se mantêm totalmente perfeito, ética e moralmente, em todos os momentos da existência, sendo que os valores morais e princípios éticos são convenções sociais que norteiam as nossas ações e a sua transgressão também faz parte da sociabilidade humana, não sendo um desequilíbrio mental, mas fruto da essência humana e de interesses e culturas que a todo momento estão em disputa e conflito.

Considerando-se no mais profundo do seu ser quase um deus Bacamarte percebe que o único que apresentava características de perfeição de conduta era ele próprio, e por isso deveria ser alvo da sua própria teoria. Portanto, se auto enclausura na Casa Verde com a esperança de encontrar a sua cura, porém morre meses depois.

Esta história nos instiga a refletirmos sobre os nossos conhecimentos, as nossas condutas muitas vezes arbitrárias e autoritárias que acabam cerceando as liberdades individuas e transgredindo outros direitos das pessoas, como o direito de defesa, de livre expressão, de ir e vir e outros. 

Além do mais, nos demostra o quanto somos imperfeitos e pequenos diante da imensidão do universo, da natureza e do conhecimento. Este, aliás, é inatingível de forma plena e individual, afinal o universo como um todo é um grande mistério a ser desvelado pela humanidade. 

Muitos, equivocadamente, pensando conhecê-lo suficientemente, sendo que não conhecem nem a milésima parte do que é digno de ser conhecido, se sentem na condição de superiores aos demais, chegando a cometerem atos de total desumanidade, como cometeu o “Dr” Bacamarte.

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